Espaço destinado aos relatos críticos de andanças pelos botecos belo-horizontinos, assim como aos pitacos sobre outros lugares quaisquer.
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sábado, 6 de abril de 2013

Xapuri - 10/02/2013


O Xapuri faz o estilo rústico, ligeiramente abafado dependendo do ambiente onde se esteja, mas amplo e aconchegante como os restaurantes-fazenda do interior mineiro. Sua fama não é de hoje, e as premiações concedidas à cozinha vão se acumulando ano após ano. Para as famílias com crianças, que são maioria nos finais de semana, há passeios de pônei e charrete aos sábados e domingos. Apesar de toda a estrutura interna, falta um estacionamento próprio, ou ao menos a presença de seguranças tomando conta dos carros parados na ruas utilizadas para este fim.


Fomos para almoçar, mas antes quisemos beber uma cerveja. A R$ 9,00 a Original (ou R$ 8,00 a Brahma / Bavaria Premium), o restaurante se mostrou não propicio a um butecage, mas tão somente para o repasto, até porque os petiscos mais simples orbitam na faixa dos R$ 50,00. Seja como for, é justo mencionar que a cerveja da casa é servida bem gelada.

Dentre as refeições, cerca de dez pratos, e mais meia dúzia de variações para o frango, que no Xapuri é de granja. Fomos de costelinha sinhá (R$ 72,00), que em que algumas publicações do gênero informam atender 4 pessoas, mas que na prática, e com o acréscimo de uma porção de arroz ao alho (R$ 15,00), nos serviu medianamente. Alerto que seja um prato compatível a não mais de três bocas, podendo ser exagerado para apenas duas pessoas.


Falando do prato em si, trata-se de costelinha frita, acompanhada de mandioca, também frita, com uma porção de arroz, uma porção de feijão tropeiro e uma porção de couve. A costelinha é saborosa, bem frita, mas a mandioca estava ligeiramente passada, o que a tornou ressecada. O arroz é soltinho e saboroso, o que atualmente é uma raridade em restaurantes. Já o feijão tropeiro, para quem conhece o prato servido no Silvio's Bar, vê que poderia ser bem melhor. A couve foi cortada e passada com esmero, e o arroz ao alho, pedido a parte, estava muito saboroso apesar do óleo exagerado.


Para a sobremesa há um bufê com inúmeras variações, ao preço de R$ 65,00 o quilo. Aprovei a ambrosia e o figo, mas nem tanto o doce de clara de ovos. O cafezinho, que pode ser adoçado com rapadura, é cortesia da casa, que ainda dispõe para a clientela uma lojinha com opções diversas de suvenir. Tudo podendo ser pago com cartão de crédito ou débito.

Quanto ao atendimento, o que parece é que cada garçom fica responsável por determinadas mesas. Pena que só descobrimos isso depois de termos dois pedidos não retornados quando solicitados a qualquer outro garçom. Poderiam, cada um deles, explicar aos clientes essa sistemática tão logo se acomodem.


No final das contas, e tendo como base sobretudo a comida, considero que o Xapuri não vale o que cobra. Quem tem na família uma avó, uma sogra ou uma esposa que conhece bem a culinária mineira irá me entender. Há pratos que foram descaracterizados para agradarem o público da "cidade grande" e, além disso, arroz e feijão não é algo que se regre em um bom representante da nossa cozinha. É interessante, certamente, mas acredito que o grande destaque se deve mais à fraquíssima concorrência do que à sua própria excelência.


Notas:

Ambiente: 3
Atendimento: 3
Bebida: 4
Comida (peso 2): 4
Custo-benefício: 3

Média Final: 3,5 estrelas


Xapuri
Rua Mandacaru, 260 - Braúnas - Belo Horizonte - MG
Tel: 31.3496-6198
Pagamento: cartão de crédito ou débito
Preço médio por pessoa: R$ 80,00

*Consumo individual, em rateio ou não, de uma porção para dois, ou duas porções para um, de preço médio, acrescida(s) de duas bebidas, serviço e couvert/entrada, quando houver. As bebidas podem ser duas cervejas, de 600 ml, ou dois drinks, ou duas doses de cachaça, dependendo da especialidade do bar.

terça-feira, 2 de abril de 2013

Boteco, uma paixão - segunda parte

Cursinho pré-vestibular é uma farra. Tempo de muitas incertezas e pressões, é claro, mas talvez até por isso tomar uma cervejinha tenha um gosto tão saboroso, quase doce! O risco dessa descontração se tornar um porre, aos dezoito anos, sem dúvida alguma é muito grande. Mas faz parte da fase, e até do amadurecimento.

Dessa época eu me lembro que, ao final de cada sexta-feira, saía da aula com a cabeça cheia de mitocôndrias, ligações peptídicas e outras coisas que nunca mais usei em minha vida. Só sabia que era necessário parar de pensar, e para isso eu costumava ir com a turma da sala ao Western House, bar que existe na Rua Guajajaras há quase quatro décadas, e que não sei avaliar se é bom, ruim ou neutro, porque desde o ano 2000 não volto ali. Íamos por questão meramente logística, já que ninguém tinha carro, e nem todos - na verdade nenhum dos meus colegas, sejamos francos -  estava em busca de uma cozinha diferenciada. Então vamos chapar logo, que é melhor. E se a Cintra estiver em promoção, esquece a Skol, pois o que importa é a quantidade!

Além do velho bar, outro lugar onde ia para poluir a mente tão rica de história medieval era o Spinelli, um bar e restaurante que funcionou no início da rua onde morei, e onde a Brahma era vendida a R$ 1,20, enquanto a Skol custava R$ 1,30 (maldita memória de boteco, não me pergunte como faço isso!). Ah, esse era bom, tinha queijo pachá, por mais que fosse uma guerra com os amigos cada tentativa de trocar as fritas por "aquilo". Se bem que, como a fome e a sede eram maiores do que a grana, era melhor chumbar algumas e, apenas ao final, pedir um magnífico talharim à parisiense! Como eu era feliz por ter convencido os amigos de que existia vida além do molho a bolonhesa! E dá-lhe Brahma de R$ 1,20!


domingo, 31 de março de 2013

Boteco, uma paixão - Primeira parte

Nestas últimas semanas antes da "temporada de botecos", movimentada sobretudo pelo concurso Comida di Buteco, mas simbolizada também por outras reuniões de bares que já aconteceram (como o Paralela de Abril) e irão acontecer (como o Outras Comidas de Boteco), me proponho a escrever de outras coisas que não um bar em si. Irei compartilhar aqui, em algumas postagens, a minha paixão pelos botecos de BH. Naturalmente essas estórias nem sempre poderão ter fotos como as resenhas, mesmo porque muitas delas aconteceram em um tempo em que nem todo jovem dispunha de um câmeras fotográfica. São momentos especiais, vivos em minha memória, e cuja vontade de registrar chegara ao seu limite.

Falo, para dar início à esta sequência, do dia em que a seleção brasileira se sagrou Tetra-Campeã. Com um time que deixou a muitos desconfiados, chegou à final com resultados magros, e ao título nos pênaltis. A comoção fora geral, e todos queriam ir para as ruas, festejar a aguardada taça. Foi o que aconteceu com a minha família, que não se conteve em seu apartamento, e sentiu a necessidade de ir para o primeiro bar que avistasse. E esse primeiro bar era o Pipou's.

Funcionando na Praça Estevão Lunardi, na mesma loja onde hoje existe o Chef Tulio, era um bar que não tinha nada demais, se é que oferecia algo além de cerveja, refrigerante e cachaça. Mas afinal, o que se queria além de uma espaçosa pracinha à frente, que era mais do que o necessário para gritar, pular e soltar foguetes? Naquele momento de comemoração extrema, possivelmente nada. Eu menos ainda, já que aos  meus doze anos não beberia nada além de guaraná. Acontece que o Pipou's, do finado Ademarzinho e seu pai, Sr. Ademar, a quem vi pela última vez atrás de um balcão de bar à Rua Gustavo da Silveira, simbolizam a minha primeira concepção de boteco: um lugar com congeladores horizontais, de onde só sai cerveja e refrigerante, uma estufa com pastéis e bolinhos frios, que o meu pai não me deixava comer, e uma arara com  salgadinhos da Elma Chips e aquelas "pimentinhas". Sei que vendiam cigarro, que existiam garçons, que os banheiros eram sujos, que tinha de se pagar pela conta, mas nada disso importava para mim. Eu queria era comer e beber, e mais nada. E se ao bar chegasse qualquer lançamento de refrigerante ou algum novo petisco, era aquilo o que eu queria! Nada de beliscar coisas repetidas, por favor!

Sei que se minha avó estivesse viva e lendo esta resenha, possivelmente diria: "menino guloso, desde moleque só pensava em se fartar". Porém, e por mais que eu não negue a gula como um dos meus pecados, com o tempo entendi que essa curiosidade extrema, sempre alvo de piadas que levo no bom humor, era nada mais que um dom. Melhor ainda quando comecei a achar que sabia escrever, e passei a compartilhar minhas experiências. Certo é que, bebendo refrigerante ou cerveja, a paixão pelos botecos me acompanha há quase dois terços dessa vida. Isso se não a trago de outras vidas, mas não será dessa vez que irei tão longe.